5 juin 2018

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes (3/4)


« Na maré alta da ultima etapa »

Escolho para titulo desta seção de literatura hoje uma frase solta de Serafim Ponte [Grande], o romance de Osvaldo de Andrade que a estas horas já deve estar á venda nas livrarias. É que a publicação dêste livro constitue um acontecimento notavel, embora esteja um tanto desambientada a concepção, do mais completo romance que as letras modernistas produziram no pais. E assim esta seção fica dedicada ao aparecimento de Serafim Ponte [Grande]. A frase colocada no alto destas colunas é a definição da situação atual do mundo, dentro da qual e em conflito com a qual se coloca Serafim, o pequeno burguês brasileiro, tipico, tão humano como dom Quixote, representativo como qualquer um desses tipos da fição, que monopolizaram o simbolo da duvida de Hamlet, do romantismo no joven Werter e tão real como a Bovari do naturalismo francês. « Na maré alta da ultima étapa » é verdadeiramente a tradução literaria da definição materialista, desse « traço carateristico da nossa época », ultima étapa do capitalismo…

Produto de uma fase de debate da nossa literatura, o livro de Osvald do Andrade, entretanto, escapa completamente aos moldes transitórios, artificiais, das obras produzidas durante as agitações renovadoras, para se situar num periodo de amadurecimento, que é o periodo de estratificação do proprio escritor, fragmentário em Memorias sentimentais de João Miramar, e nas poesias indecisas de Páu Brasil.

A definição materialista que me vem preocupando desde o titulo, é amostra de atitude diferente agora mantida pelo romancista. Faz parte do prefácio, escrito neste ano, como profissão de fé que o autor achou necessária para justificar a publicação de Serafim.

Em 1928 se estava atravessando a primeira fáse da antropofagia, quando ela era considerada atitude inteletual sem divergencias, dentro da qual cabiam desde o futil escritor Antonio França Junior de Alcantara Machado, o poetinha Guilherme de Almeida e o autor de Macunaima que só entrára no brinquedo, como me confessou, para manter o « aplomb* »… Lógo porém se processava a definição de certas tendencias mais decisivas e se dava a desagregação. Quando Raul Bopp e Osvald de Andrade me propuzeram a fatura da « Pagina de antropofagia », a desagregação daqueles elementos já se déra, na heterogeneidade evidente, diante da intransigencia dos antropofagos que não papavam hostia nas missas de Santa Cecilia, e deixavam de lado os « salões da nossa melhor sociedade ». Pra diante os antropofagos dando de fazer propaganda de algumas idéas tidas como avançadas, tais como o exame pré-nupcial, a educação sexual e outras coisas assim, a direcção do Diario de S. Paulo, com o gerente Orlandinho Dantas, á frente, poz na rua o grupo que perpetrava, para goso dos pais de familia, a escandalosa literatura semanal da corrente antropofagica. O ciclo assim encerrado, em escaramuças que tiveram duração de poucos mêses, deu entretanto alguns livros e exarcebou maiores pesquizas. Freud fôra posto de lado, em contáto com Jung, Politzer e Adler. Preocupavam-nos mais os teoristas da Gelsttat e da behaviour. Serafim é bem dêsse periodo, não importando que fôsse começado antes, pois me recordo de capitulos inteiros publicados ai em 1926 no finado Jornal do Comércio, onde Osvald escrevia a « feira das quintas ».

Só então Serafim ganha ultima forma. Lembro-me que ai o escritor destruiu a pagina da dedicatória, a « ilustre dama paulista ».

Logo de frente, Macunaima, de Mário de Andrade, se torna uma obra sem interesse para o leitor de hoje. Os golpes militares nos aguçaram mais as sensações e não é qualquer pastiche de folclore tomado dos « nhengatu’s » que nos vá impressionar agora. Mas Serafim é diferente. É um sujeito jogado na maré alta da ultima etapa, que vive e se agita entre as contradições econômicas da grande terra pobre, recalcado e imoral, deflagrando a sua existencia em moles aventuras sexuais, perturbado por um passado sofredor e praticando ofensivas vibrantes em busca de solução para o seu conflito interior de incontentado.

Toda uma antologia dessas angustias que cruciam a pequena burguesia da terra do café, classe média oscilante e depositária das instabilidades morais e materiais da nacionalidade informe, passa como um filme minucioso aos olhos de quem lê. A camera lenta descreve em requintes de estilo « moderno » a noite de amor em frente ao mar, primeiro desabafo Serafim gosando, e nos dá as descrições adjetivosas e transparentes da viagem ao Oriente e a visita ao Santo Sepulcro, onde um guarda informativo esclarece Serafim que Cristo nasceu na Baia… A revolução de 1924 tem paginas de estilo heroico, e o casamento de Serafim á vasado num « schetch » de efeito escandaloso, como o áto teatral de Serafim perante a Justiça por causa do cachorrinho Pompeque.

As paginas de bordo têm analogia com as do « Terremoto Doroteu », se dando nelas a exteriorização da vida tortuosa e torturada de Serafim, que o romance de Dorotéa nos mostra em toda a extensão de seus tumultos provocados pelas contingencias domesticas, povoadas de pontos de referencia cujos pólos se situam na mulher com quem casou, e na outra que aparece, a « unica declamadora diseuse com temperamento que possuimos ».

Para terminar, eu acredito que não teremos tão proximamente em nossa literatura um recorde igual de invenção e realização do que êste que Osvald conseguiu realizar, desmandibulando os nossos literatos modernos, e a corja sem nome dos coelhosnetos que ainda pulula pelo pais despoliciado. É o documento do estado atual da classe média, no que poderia haver de mais notavel como literatura moderna do Brasil tambem em sua ultima etapa. Daqui pra diante, a historia será outra.

Continuaremos a traçar nossas « diretrizes » de que nos afastámos para prestar a atenção que merece o fabuloso humorista que creou a figura caricatural e realista deste Serafim satirizado. O boêmio-burguês se vingou da classe média no livro, e se voltou numa atitude perfeitamente logica para o proletariado, no prefacio sincéro, que relata a evolução operada nos cinco anos transcorridos da ofensiva antropofagica á adesão conciente ao marxismo e suas consequências.

Geraldo Ferraz.


Texte original (graphie non actualisée) tiré de :
O Homem Livre, São Paulo
1e année, n° 8, 17 juillet 1933
rubrique « Literatura », p. 3

(Lire les livraisons précédentes : 1, 2.)

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