16 juin 2018

Les couvertures de la littérature prolétarienne



José Mancisidor
[1894-1956]
La ciudad roja
(Novela proletaria)
[roman]
Jalapa, Editorial Integrales, 1932
13x19,5 cm, 222 p.

Couverture de Leopoldo Méndez (1902-1969).

Pas d’achevé d’imprimer, pas de justification de tirage.


[Traduction française en préparation — pour l’éditeur inconnu.]

Les couvertures de la littérature prolétarienne



Lorenzo Turrent Rozas
[1903-1941]
Hacia una literatura proletaria
[essai, suivi d’une anthologie collective]
Xalapa, Ediciones Integrales, s. d. [1932]
ca. 12x19 cm, xxii-83 p.

Ouvrage sorti de l’imprimerie La Económica (Jalapa), propriété de Ciro Flores Páez, achevé d’imprimer le 10 octobre 1932 par l’ouvrier Manuel Morales. Sans justification de tirage.

Au sommaire, après l’essai-titre, « 7 cuentos proletarios » : Enrique Barreiro Tablada, « Contra el embajador » ; Álvaro Córdoba, « Transición » ; Germán List Arzubide, « Pared de adobes » ; José Mancisidor, « El sargento » ; Consuelo Uranga, « Un crimen » ; Mario Pavón Flores, « El camarada Gerardo Uroz » ; Solón Zabre, « El huelguista ».


[Traduction française en préparation — pour l’éditeur inconnu.]

Ainda sobre Pagu e seu romance proletário


Logo em breve, cada um poderá fazer sua própria leitura…

15 juin 2018

Arqueles Vela & « le roman inédit du stridentisme »

…il n’y a pas de protagonistes ;
mais des antagonistes…
Le manuscrit introuvable

Avertissement

C’est la première fois qu’un livre posthume — le livre que l’on écrit après la mort, selon la définition transcrite dans le manuscrit introuvable — est publié en toute logique, car, conformément à ses préceptes, l’homme meurt plus d’une fois au cours de son existence…

Ainsi, le texte que nous offrons à présent fut commencé à Mexico, en 1925, quand le grand maître et philologue Pablo González Casanova, à qui l’on racontait la réalité de l’un des chapitres, suggéra à l’auteur d’en composer l’histoire complète, et c’est ainsi que débuta l’histoire…

Cette année-là, l’auteur, bousculé par des vicissitudes sentimentales, se sentit forcé de voyager, et comme, selon le vieil apophtegme, voyager c’est mourir un peu… l’auteur mourut un peu…

Par la suite, à Madrid, en 1927, rue Velázquez, n° 4, studio de Ramón Gómez de la Serna, durant une discussion avec Marichalar, Benjamín Jarnés, Maroto, le grand inventeur des greguerías dit : — « Nous savons ce qu’il ne faut pas faire en matière de roman… Antonio Espina, dans Pájaro pinto, et Arqueles Vela, dans El intransferible, défrichent la voie… »

Ainsi, El intransferible devait être publié à Madrid… mais, parce qu’il appartenait à la bande républicaine du Café Saboya, aux côtés de Valle-Inclán, García Lorca, Martín Luis Guzmán, Ortega, l’auteur, expulsé d’Espagne, entreprit un autre voyage et mourut, encore une fois, un peu… Ensuite, à Paris, à l’Ambassade du Mexique, à la fin d’une lecture de El intransferible devant Alfonso Reyes — alors ambassadeur —, Carlos Pellicer, Germán Cueto, Manuel M. Ponce et Miguel Ángel Asturias, les éditions París-América s’offrirent de le publier. Mais… tandis que l’on corrigeait les épreuves de la première édition, l’auteur, démis de son poste de correspondant à la Revista de Revistas et à Jueves de Excélsior par J. M. Durán y Casahonda, qui venait de prendre en charge la gérance du groupe de presse qui éditait les hebdomadaires cités, dépourvu de tout autre moyen de subsistance et de séjour, comme un autre condamné aux périples, abandonna Montmartre et La Rotonde, se lançant dans un autre voyage vers l’Allemagne et de nouveaux horizons inconnus… et mourut encore un peu…

À la fin de son moratoire sentimental, de retour à Mexico, quand l’un de ses plus grands amis éditeurs lui annonça que s’il publiait El intransferible, non seulement il irait en prison avec l’auteur, mais que l’on détruirait ses biens jusqu’à la cinquième génération, l’idée de jeter l’œuvre en pâture au public fut ajournée…

Mais voilà qu’un groupe denthousiastes jeunes gens, fondateurs des éditions Gama, décide de l’envoyer à l’imprimerie, courant le même risque que l’auteur… et la fait imprimer comme le roman posthume du stridentisme, cinquante ans après qu’elle a été écrite.

A. V.


Trad. de « Prenunciación »
préf. d’Arqueles Vela [1899-1977]
à El intransferible
(La novela inédita del estridentismo)
Mexico, Editorial Gama, 1977, 157 p.
(achevé d’imprimer le 15 août 1977, tiré à 3000 ex.)

Première et unique édition en espagnol.

Traduction française en préparation, pour l’éditeur inconnu.

5 juin 2018

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes


Pour célébrer l’imminente parution
de
Patrícia Galvão (Pagu)
Parque industrial
romance proletário
dans une
nouvelle édition brésilienne
retour en 1933
avec un
feuilleton critique
de
Geraldo Ferraz
tiré du journal
O Homem Livre

*
4 livraisons (en portugais) :

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes (4/4)


O lado demonstrativo das contradições

Na inconciencia de nossos literatos sempre andou uma certeza : nós não tomamos atitude na questão social nem ela nos interessa. A literatura é isto. Creação, inspiração, arte pela arte, etc. Hoje quem repetir assim continua dizendo bobagem.

Erigiu-se na literatura chamada passadista, em maximo da atividade literaria o humorismo de Machado de Assis, intelectual superior, com um desprêso absoluto pela alegria e pela dôr, sorriso safado de quem comeu e não gostou, mas finge que gostou. Essa literatura desestimulante, encontra mais tarde proseguidores nos modernistas, devido muito á facilidade da linguagem que transformara em feição humoristica o que se escrevia decalcando os modernistas estrangeiros. E Memorias sentimentais de João Miramar é a prova mais forte dessa afirmação, em seu vasio de comentario inutil.

Entretanto, o humorista sempre tomou partido, alguns póde muito bem ser que na inconciencia da nossa profunda ignorancia coletiva, mas outros na pirataria nacional da quasi colonia que precisava ir remando contra a maré enganando os trouxas entre as duas margens, dum lado o clero doutro a autoridade. Essa Autoridade que começava no funcionario publico de baixa categoria, que passava pelo soldado razo e de que usufruiam gôso no pais feudal e pobre o filho das familias ricas e as meretrizes dos homens importantes, o fazendeiro e o comerciante, o dono da renda e o presidente da Republica. Doutro lado o padre, gosando e comendo o Brasil por uma perna.

Mas o humorista sempre soube esconder o seu jôgo melhor que os outros.

* * *

Os literatos do periodo do nosso romantismo e mais tarde do periodo do nosso naturalismo eram grandemente amigos das classes que estavam de cima. Nas paginas de Macedo e de Alencar, nas de Aluisio e de Raul Pompeia, a escravidão negra era um mal necessário, a miseria da grande massa era hipócritamente ignorada, a submissão do indigena era exaltada, a fome sexual reprimida por uma psicóse ou sublimada no trama dos romances canalhas e superficiais. E assim por deante até o nosso modernista que escreveu a historia da alemã profissional que ensinava amor pro menino rico de Higienopolis. Literatos que recebia festinhas por isso…

Nenhum desvio na róta.

* * *

No genero muito apreciado do ensaista, a pêna de Jackson de Figueiredo se enfeitou com as galas da defesa diréta da igreja e de todo o seu obscurantismo, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem.

Afogado felismente Jackson de Figueiredo, outro ensaista Tristão Amoroso Lima de Ataide, juntou besteira na defesa da classe de piratas a que pertence, como grande industrial. Tornou-se o lider, o grande homem do clericalismo na terra. Deitou artigos e se encheu de autoridade critica.

A corrente antropofágica de São Paulo marcou época para os que tomaram parte nela e ficou como ponto de referencia na evolução natural do pequeno grupo. Maria Lôbo surgida depois com o seu livro desconcertante no equilibrio de uma linha marcada a unhas e dentes, tomou o nome do parque industrial de S. Paulo nos dando algumas aguas-fortes do que êle é em seu sub-solo inesplorado.

Dai pra cá mais nada.

No prefacio de Serafim a que me referi noutro dia, Osvaldo de Andrade agora escreve direito ainda por linhas tortas.

* * *

Todas essas diretrizes estão bem delineadas.

Hoje nos encontramos num angustiosa encruzilhada pensando o que escrever. Se nunca houve arte pela arte agora mesmo é que o concenito não cabe na camisa de onze varas em que se meteu o mundo. O literato some. A literatura brasileira se satura de livros de divulgação cientifica, e se esparrama nas traduções dos romances sensacionais de todos os paises. Os literatos paulistas ficam nos artigos de jornais. Alguns mais safados como Plinio Salgado, formam na corrente dos que procuram a harmonia social, sob a tutéla do Estado integral, e são Gustavo Barroso, Ribeiro Couto, etc.

O que está faltando aos literatos do meu pais, são as diretrizes claras e precisas impostas pelo momento historico universal.

Do catolicismo á « melancia organica », citada pelo amigo Serafim. E dai, o rumo para onde nos levam as consequências deste tempo do barulho é aquêle da realidade objetiva da vida, no seu lado demonstrativo das contradições economicas de todos os dias.

Geraldo Ferraz.


Texte original (graphie non actualisée) tiré de :
O Homem Livre, São Paulo
1e année, n° 9, 24 juillet 1933
rubrique « Literatura », p. 3

(Lire les livraisons précédentes : 1, 2, 3.)

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes (3/4)


« Na maré alta da ultima etapa »

Escolho para titulo desta seção de literatura hoje uma frase solta de Serafim Ponte [Grande], o romance de Osvaldo de Andrade que a estas horas já deve estar á venda nas livrarias. É que a publicação dêste livro constitue um acontecimento notavel, embora esteja um tanto desambientada a concepção, do mais completo romance que as letras modernistas produziram no pais. E assim esta seção fica dedicada ao aparecimento de Serafim Ponte [Grande]. A frase colocada no alto destas colunas é a definição da situação atual do mundo, dentro da qual e em conflito com a qual se coloca Serafim, o pequeno burguês brasileiro, tipico, tão humano como dom Quixote, representativo como qualquer um desses tipos da fição, que monopolizaram o simbolo da duvida de Hamlet, do romantismo no joven Werter e tão real como a Bovari do naturalismo francês. « Na maré alta da ultima étapa » é verdadeiramente a tradução literaria da definição materialista, desse « traço carateristico da nossa época », ultima étapa do capitalismo…

Produto de uma fase de debate da nossa literatura, o livro de Osvald do Andrade, entretanto, escapa completamente aos moldes transitórios, artificiais, das obras produzidas durante as agitações renovadoras, para se situar num periodo de amadurecimento, que é o periodo de estratificação do proprio escritor, fragmentário em Memorias sentimentais de João Miramar, e nas poesias indecisas de Páu Brasil.

A definição materialista que me vem preocupando desde o titulo, é amostra de atitude diferente agora mantida pelo romancista. Faz parte do prefácio, escrito neste ano, como profissão de fé que o autor achou necessária para justificar a publicação de Serafim.

Em 1928 se estava atravessando a primeira fáse da antropofagia, quando ela era considerada atitude inteletual sem divergencias, dentro da qual cabiam desde o futil escritor Antonio França Junior de Alcantara Machado, o poetinha Guilherme de Almeida e o autor de Macunaima que só entrára no brinquedo, como me confessou, para manter o « aplomb* »… Lógo porém se processava a definição de certas tendencias mais decisivas e se dava a desagregação. Quando Raul Bopp e Osvald de Andrade me propuzeram a fatura da « Pagina de antropofagia », a desagregação daqueles elementos já se déra, na heterogeneidade evidente, diante da intransigencia dos antropofagos que não papavam hostia nas missas de Santa Cecilia, e deixavam de lado os « salões da nossa melhor sociedade ». Pra diante os antropofagos dando de fazer propaganda de algumas idéas tidas como avançadas, tais como o exame pré-nupcial, a educação sexual e outras coisas assim, a direcção do Diario de S. Paulo, com o gerente Orlandinho Dantas, á frente, poz na rua o grupo que perpetrava, para goso dos pais de familia, a escandalosa literatura semanal da corrente antropofagica. O ciclo assim encerrado, em escaramuças que tiveram duração de poucos mêses, deu entretanto alguns livros e exarcebou maiores pesquizas. Freud fôra posto de lado, em contáto com Jung, Politzer e Adler. Preocupavam-nos mais os teoristas da Gelsttat e da behaviour. Serafim é bem dêsse periodo, não importando que fôsse começado antes, pois me recordo de capitulos inteiros publicados ai em 1926 no finado Jornal do Comércio, onde Osvald escrevia a « feira das quintas ».

Só então Serafim ganha ultima forma. Lembro-me que ai o escritor destruiu a pagina da dedicatória, a « ilustre dama paulista ».

Logo de frente, Macunaima, de Mário de Andrade, se torna uma obra sem interesse para o leitor de hoje. Os golpes militares nos aguçaram mais as sensações e não é qualquer pastiche de folclore tomado dos « nhengatu’s » que nos vá impressionar agora. Mas Serafim é diferente. É um sujeito jogado na maré alta da ultima etapa, que vive e se agita entre as contradições econômicas da grande terra pobre, recalcado e imoral, deflagrando a sua existencia em moles aventuras sexuais, perturbado por um passado sofredor e praticando ofensivas vibrantes em busca de solução para o seu conflito interior de incontentado.

Toda uma antologia dessas angustias que cruciam a pequena burguesia da terra do café, classe média oscilante e depositária das instabilidades morais e materiais da nacionalidade informe, passa como um filme minucioso aos olhos de quem lê. A camera lenta descreve em requintes de estilo « moderno » a noite de amor em frente ao mar, primeiro desabafo Serafim gosando, e nos dá as descrições adjetivosas e transparentes da viagem ao Oriente e a visita ao Santo Sepulcro, onde um guarda informativo esclarece Serafim que Cristo nasceu na Baia… A revolução de 1924 tem paginas de estilo heroico, e o casamento de Serafim á vasado num « schetch » de efeito escandaloso, como o áto teatral de Serafim perante a Justiça por causa do cachorrinho Pompeque.

As paginas de bordo têm analogia com as do « Terremoto Doroteu », se dando nelas a exteriorização da vida tortuosa e torturada de Serafim, que o romance de Dorotéa nos mostra em toda a extensão de seus tumultos provocados pelas contingencias domesticas, povoadas de pontos de referencia cujos pólos se situam na mulher com quem casou, e na outra que aparece, a « unica declamadora diseuse com temperamento que possuimos ».

Para terminar, eu acredito que não teremos tão proximamente em nossa literatura um recorde igual de invenção e realização do que êste que Osvald conseguiu realizar, desmandibulando os nossos literatos modernos, e a corja sem nome dos coelhosnetos que ainda pulula pelo pais despoliciado. É o documento do estado atual da classe média, no que poderia haver de mais notavel como literatura moderna do Brasil tambem em sua ultima etapa. Daqui pra diante, a historia será outra.

Continuaremos a traçar nossas « diretrizes » de que nos afastámos para prestar a atenção que merece o fabuloso humorista que creou a figura caricatural e realista deste Serafim satirizado. O boêmio-burguês se vingou da classe média no livro, e se voltou numa atitude perfeitamente logica para o proletariado, no prefacio sincéro, que relata a evolução operada nos cinco anos transcorridos da ofensiva antropofagica á adesão conciente ao marxismo e suas consequências.

Geraldo Ferraz.


Texte original (graphie non actualisée) tiré de :
O Homem Livre, São Paulo
1e année, n° 8, 17 juillet 1933
rubrique « Literatura », p. 3

(Lire les livraisons précédentes : 1, 2.)

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes (2/4)


Diretrizes

A frase igual expressando a necessidade de « intervenção ativa » na vida do tempo que eu escrevi no numero anterior desta seção, é de Gorki, em Eux et nous. Não representa entretanto senão um pensamento muito generalizado e que os expressionistas da poesia alemã de logo depois da guerra puzeram nos seus poemas « humanizadores », já que não puderam ir além. É assim Franz Werfel e outros. Dêle o poema do desejo de ser parente do Homem, embora seja um negro, um acrobata, uma creança de peito, uma jovem que canta, um soldado ou aviador de coragem encarniçada… Já lembrei, no numero passado, o ponto de vista tambem « humanizador » de Lima Barreto, em nossas letras. Êle queria muito a compreensão espiritual dos homens. Mas sua pêna de humorista mergulhava muito fundo nessa « insondavel burrice humana » e assim é que nem sempre o idealista conseguia fazer da realidade de seus contos e romances esse elemento coordenador da ansia dos homens, que êle visava. Sua excelência é um importante exemplo de sua fôrça destruïdôra. Um parlamentar vai pra casa de automovel e a um certo ponto começa a dormir e sonhar que éra o chofêr. Então, chega na porta do Congresso e recebe servilmente o patrão… mas que delirante poder de destruïção na trama dessas tres paginas lentas e perfeitas !

Em mais de uma vez porém, Lima Barreto deixa patente como nunca em nossa literatura a contradição fundamental da sociedade que analisa (ex. Clara dos Anjos).

* * *

Isso aconteceu ainda no romance escrito na banca de jornalista Numa e a ninfa em que focalisa aspectos interessantissimos do Rio de Janeiro, realizando uma ampla e vigorosa demonstração caricatural mas grandiosa do pequeno-burguês que vence na politica com os discursos escritos pelo primo, amante de sua mulher…

Muitos anos depois Osvaldo de Andrade escreverá Serafim Ponte Grande que é a fotografia animada e comentada do pequeno-burguês « na maré alta da ultima etapa ». Foi o escritor mais inteligente e imaginoso que tivémos depois de Lima Barreto. Não pôde ainda passar definitivamente para o lado da trincheira por lhe faltar base-ambiente. A sistematização da ironia graça « piada » que êle conseguiu grudar no panorama de suas possibilidades, é desses moldes que estão sempre fundindo a mesma coisa com a insistencia de uma matriz de linotipo.

* * *

Está para aparecer o romancista que demonstre e vá acentuando em nossa « realidade brasileira », — tão igual as outras realidades de outros países em seus aspétos essenciais, todas as contradições econômicas qui crieam os conflitos sociais, pronfundamente humanos sempre, quer seja a conseqüência do amor insatisfeito, das ambições sem horizontes, da luta de classe, da revolta dos oprimidos.

E ao literato de hoje cabe ir entrando decisivamente nêsse terreno, porque é só por êle que teremos uma literatura que corresponda efetivamente aos momentos agitados da historia atual quando mais se aguçam aquelas contradições fundamentais, na logica do desenvolvimento da sociedade capitalista.

A literatura revolucionária em conteúdo, mas realista em sua mais ampla compreensão dos acontecimentos que interessam ao homem de hoje — canalizados todos nas linhas estruturais do regime em agonia, será essa. Desmascaramento audaz e decisivo, Passageiros de 3a, Petroleo, Judeus sem dinheiro, e é Gold, Upton Sinclair, Kurt Kleiber.

* * *

Naturalmente é muito dificil que algum brasileiro logo vá publicando coisas revolucionárias como êsses escritores que estão muito longe dos nossos estreitos grupinhos intelectuais, onde sempre ha alguns caciques católicos e conseqüêntemente cretinos. Essa suficiencia de cretinismo está como uma super-censura na porta das redações dos jornais, onde se dá no Brasil o inicio da carreira literaria, e tambem na porta dos editores, êsses individuos calculistas e ambiciosos, que só querem fazer industria sem escrupulo algum e sem visão nenhuma. A gente que lê vai aceitando tudo. Nas seções bibliograficas dos jornais de novo o cretinismo o cretinismo católico e recalcado engole as iniciativas bem intencionadas e glorifica as « obras » de Paulo Setubal, de Viriato Corrêa, de Gustavo Barroso, de Menotti del Picchia e de outros heróis do romance das bandeiras e de outras coisas movimentadas do nosso passado.

* * *

Um dêsses escritores me disse :

« A receita é esta. Leia-se um pedaço de historia de S. Paulo, periodo das bandeiras ou das bandalheiras de Pedro I. Depois se organize com apoio nêsses dados historicos uma historia heróica ou picante, com alcôvas bem cheirosas. Escrevam-se 300 paginas, e venda-se á Companhia Editora Nacional pela quantia de 3:000$000. »

É assim que se procede, criminosamente, ao envenenamento intelectual do leitor, produzindo-se baboseiras para enriquecer editores. Fóra dessa literatura sordida, os escritores de São Paulo não deram nêstes seis mezes de 1933 um romance, um livro, um artigo, póde-se dizer…

Geraldo Ferraz.


Texte original (graphie non actualisée) tiré de :
O Homem Livre, São Paulo
1e année, n° 7, 8 juillet 1933
rubrique « Literatura », p. 5

1933 : le moment prolétarien dans les lettres brésiliennes (1/4)

1922 ? Ce que c’est, une dizaine d’années, dans l’histoire des livres et des idées… Manifestes, tribunes, revues, livres et plaquettes, tendances, groupes d’influence, disputes, polémiques ; malgré tout, la consécration d’un état d’esprit collectif, d’un mouvement de génération, le dit « modernisme »… Puis le feu de joie de l’Anthropophagie, autour d’Oswald de Andrade, en 1928-1929 ; dissensions personnelles, esthétiques ou idéologiques au sein des groupes modernistes de São Paulo et de Rio de Janeiro : Oswald se fâche avec Mário de Andrade, avec Paulo Prado, avec tout le monde (ou presque), divorce de Tarsila et épouse Pagu… Et puis la politique : crise économique de 1929 ; coup d’État de Getúlio Vargas en 1930, gouvernement provisoire et résolution de la crise de régime par la voie autoritaire ; persécution des communistes, l’opposant Luis Carlos Prestes en exil ; montée du fascisme autour de l’Intégralisme de Plínio Salgado ; révolution constitutionnaliste manquée en 1932…

On est loin désormais du moment « futuriste », de l’avant-garde triomphante et mondaine de la Semaine d’Art Moderne, festival organisé au Théâtre Municipal de São Paulo en février 1922, sous l’égide du philosophe et académicien Graça Aranha ; loin de la confidentielle revue Klaxon (1922) et des idéaux esthétiques d’un petit groupe de poètes et d’artistes issus de l’élite socio-économique ; loin de l’explosion poétique de Pauliceia desvairada (1922) de Mário de Andrade ou de la « poésie d’exportation » Pau Brasil (1925) d’Oswald de Andrade, du couple « Tarsiwald », incarnation même de l’esprit moderniste. Parmi ceux-là, toute une phalange a viré à gauche, au communisme ou tout comme ; pas tous, et certains tiennent même très bien leur droite. Pour les premiers, les plus « avancés », c’est le moment non seulement d’un bilan, mais d’une liquidation, largement engagée déjà dans les pages de la Revista de Antropofagia, et d’une radicalisation dont témoigne bellement le journal politico-satirique O Homem do Povo qu’animent brièvement, en 1931, Oswald de Andrade et Patrícia Galvão, dite Pagu.

Et voilà que paraissent en 1933, successivement, le premier roman prolétarien brésilien, Parque industrial de Pagu (sous le pseudonyme Mara Lobo), le roman Serafim Ponte Grande d’Oswald de Andrade, ultime produit de ses années de bohème avant-gardiste, mais précédé d’une préface de circonstance en forme d’autocritique, puis Cacau, le premier roman social de Jorge Amado… On passe pour ainsi dire d’une révolution de la littérature à une littérature de la révolution, selon des modalités diverses, et diversement commentées. On délaisse Marinetti pour Karl Marx…

Pendant ce temps, un Geraldo Ferraz (1905-1979), jeune journaliste passé d’ailleurs par la Revista de Antropofagia (secrétaire de rédaction de la « 2e dentition », en 1929) et occasionnellement par O Homem do Povo, assume à São Paulo la rédaction en chef d’O Homem Livre (22 numéros de mai 1933 à février 1934), un journal de la gauche antifasciste.

Il y donne notamment une série de chroniques sur le récent mouvement littéraire. Sanction de l’historique indifférence ou de la cécité politique des littérateurs brésiliens, mise en cause de la jeune génération de l’avant-veille, identification d’une veine sociale ou révolutionnaire qui se fait attendre, réception de toute une littérature prolétarienne en provenance de l’étranger, impératifs idéologiques et injonctions à l'engagement, redéfinitions, discriminations, « directions »… Ce petit feuilleton critique constitue ainsi une source documentaire irremplaçable pour saisir un moment particulier de l’histoire littéraire et culturelle brésilienne, ce tournant entre le modernisme des années 1920 et le roman social des années 1930, pour le dire très simplement. Il nous vient, qui plus est, d’un proche de Pagu qui avait déjà signé, au début de l’année, la toute première recension de Parque industrial (voir la traduction française de cet article), et qui était appelé à occuper le premier plan de sa biographie, puisqu’elle devait l’épouser en 1940, à sa sortie de prison, cosignant avec lui son second roman, la fiction anticommuniste A Famosa revista, en 1945, tout en frayant un temps avec le groupe trotskiste de Mário Pedrosa, pour passer avec lui le restant de sa vie.

En redonnant, dans l’immédiat en portugais, cette série de quatre articles tirés des archives, Bois Brésil & Cie entend saluer à sa façon l’imminente reparution du roman de Pagu, Parque industrial, dans une nouvelle édition brésilienne qui promet de faire date…

2018 ?

A. C.

* * *


Diretrizes

A literatura brasileira teve um periodo agudo de dentição quando a Semana de Arte Moderna de S. Paulo andou fazendo alarde de leituras dos modernistas francêses e italianos.

Mas Graça Aranha já era. Parece mesmo um caso de precocidade esse caso de Graça Aranha na literatura brasileira. O palavriado desbordante do escritor de Canaan cheio de subt’lêsas dificeis, fez acreditar num « espirito moderno » tão vago como o « espirito revolucionario » de certos revolucionarios que nós bem conhecemos. A dentição da literatura brasileira entretanto, ficou na primeira infancia. Alguns foram adeante, e o reduzido grupo da antropofagia andou devorando os ultimos tabus. Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, o prosador insigne e o poeta maximo, se desviaram com engulhos da refrega de discussão que Oswaldo de Andrade, Raul Bopp e Oswaldo Costa dirigiam. Nunca Mário de Andrade e Guilherme de Almeida poderiam entrar no treino violento do barulho antropofágico. Um deveria acabar na Academia de Letras vestindo bordados, e outro « ouvindo musica », como escreveu Di Cavalcanti, e arrematando males…

* * *

Esta questão literária no Brasil precisa de ser esclarecida. No grande parque de bananeiras e preguiça, os plumitivos se maravilham com a escachoante atrapalhada de Coelho Neto, a fulgurancia de Gustavo Barroso e a erudição dos Zevacos (Paulo Setubal, Viriato Corrêa, Menotti del Picchia, João Francinha e que tais).

Se foi o tempo da novéla de costume de Aluizio Azevedo. Mas ficaram os males. Ficou o gôso da sacanagem de Macunaima, e esse acanalhamento pesado de Yan de Almeida Prado nos Tres Sargentos. Até o Parque Industrial se póde dizer que sofreu essa angustia de desabafo.

Ninguem, porém teve coragem de traçar a diretriz adoptada. Apenas no nosso passado ha uma reminiscencia do prefacio de Historias e Sonhos em que Lima Barreto toma posição no sentido humano do entendimento universal. A sua « literatura XXX militante » fica na expressão evangelica da maior compreensão dos homens, no mundo em que se guerreiam japonêses ferozes e brancos nacionalistas.

O modernismo literário do Brasil deu mais um az de sua graça no ultimo sabado, quando inaugurando a exposição de arte do Rio, no estudio do fotografo Nicolas, Renato Almeida inventou de ler o seu « toque de sentido » que é uma derivação da saudade do escritor Graça Aranha e uma estreitinha diretriz de criação de coisa moderna. Resume-a a frase : « A expressão espirito moderno será entendida sempre segundo o criterio de relatividade do tempo, significando as ideias avançadas em literatura e arte ».

As « idéas avançadas em literatura e arte » !

Antonio de Alcantara Machado, ainda na semana que acabou disse que é preciso se definir. Mas se definir mesmo.

Diretrizes perante os acontecimentos, e diretrizes não só « modernas », mas de posição de combate, ao lado desta ou daquela ideologia que estão governando o mundo, diretrizes firmes a favor ou contra Hitler, o Papa e Moscou.

E dai ?

É que a literatura precisa assumir o caráter de intervencão ativa nos acontecimentos de seu tempo. Essa será a literatura moderna, no amplo sentido de interesse humano e atual.

Como realizá-la ?

Geraldo Ferraz.


Texte original (graphie non actualisée) tiré de :
O Homem Livre, São Paulo
1e année, n° 6, 2 juillet 1933
rubrique « Literatura », p. 3